Os Jogos de Pequim acabaram e o maior medo dos chineses não se concretizou. Não houve qualquer manifestação política, nem por parte do público, nem pelos atletas, mesmo em relação ao Tibet que foi o maior foco das críticas internacionais. O medo dos organizadores não era infundado. Primeiro por se ter realmente um motivo para manifestações; segundo porque os Jogos sempre foram palco para demonstrações ideológicas. De acordo com o sociólogo francês Pierre Bordieu, as disputas esportivas são uma representação simbólica civilizada das guerras nos campos de batalha. Nas Olimpíadas de 1968 no México, dois atletas americanos, Tommie Smith (medalha de ouro) John Carlos
(medalha de bronze) nos 200 metros (atletismo), no momento de receber as medalhas subiram ao pódio descalços, de luvas pretas e ergueram os punhos repetindo a saudação dos “Panteras Negras” enquanto se ouvia o hino americano. O Partido Panteras Negras foi formada em 1966 em Oakland Califórnia. Sua finalidade original era proteger os negros dos atos de brutalidade da polícia. O Comitê Olímpico Internacional (COI) acabou banindo os atletas dos jogos. Quando regressaram aos EUA, Tommi Smith e John Carlos tinham perdido os empregos e foram várias vezes humilhados e ameaçados de morte, inclusive a seus familiares.
Hoje aos 63 anos de idade, John Carlos vive em São Francisco e diz que “apesar de eu ter perdido a minha mulher (que se suicidou em 1977), ainda acho que aquele gesto foi a coisa mais importante que eu fiz na minha vida."
Como destaque negativo, cito a Olimpíada de Munique no ano de 1972 com hediondo ato terrorista do grupo Setembro Negro que acabou vitimando atletas e membros da delegação israelense. O ataque ficou conhecido como o Massacre de Munique e infelizmente é apenas mais um capítulo do histórico conflito entre judes e palestinos.
Em época de Olimpíadas sempre é lembrada Berlim 1936. A façanha do atleta Jesse Owens, vencedor de quatro medalhas de ouro em provas de atletismo superando os atletas alemães. Curioso é que quando se referem a esses jogos afirmam se tratar de uma grande estratégia política de Hitler para demonstrar a supremacia de sua nação. Mas não é isso que todos os outros países fazem? Não é isso que a China fez na sua disputa clara e manifesta contra os Estados Unidos pela vitória nos Jogos e a supremacia esportiva? Também muito se fala do atleta americano negro Jesse Owens que superou os atletas arianos, superiores segundo Adolf Hitler. Curioso é perceber que para o negro Owens mais importante do que ganhar dos alemães e vencer o nazismo (que naquela época era quase que um total desconhecido para os americanos) fosse conquistar o respeito e admiração de seus compatriotas, fosse a superação do preconceito e racismo do povo americano. Muito se conta dessa façanha em Berlim, dizem até que Hitler ao assistir a vitória de Owens teria abandonado o estádio Olímpico. Mas segundo Owens:
Quando cheguei de volta para o meu país de origem, depois de todas as histórias sobre Hitler, eu não podia andar na parte da frente do ônibus. Eu tinha que ir para a porta traseira. Eu não poderia viver onde eu queria. Não fui convidado para apertar a mão de Hitler, mas também não fui convidado para a Casa Branca para apertar a mão do Presidente.
Jesse Owens é sempre citado como uma demonstração de vitória sobre o preconceito racial do nazismo. Muito embora na época a façanha de Owens não tivesse essa conotação que hoje é dada. Provavelmente ela surgiu depois com o advento da Segunda Guerra Mundial e os planos de extermínio que os nazistas puseram em prática.
Mas voltando a Pequim 2008. Nada de manifestações. Em parte pela repressão do governo chinês, em parte pelo COI. Olimpiada é lugar de esporte, somente isso dizem eles. Como se deixássemos de ser humanos. Como se deixássemos de ter sentimentos. Mas enfim, como diriam alguns pensadores da atualidade, a falta de ideologia parece ser uma característica dos tempos atuais, principalmente da juventude, perdida num consumismo hedonista. Acho que é um certo exagero, uma generalização, mas não deixa de ter sentido. No mínimo é motivo para reflexão.
Abraços e Aproveitem o Dia! Pensem e ajam.
Leonardo
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